segunda-feira, abril 24, 2006

Achado n é roubado:

almoço

Um almoço, extraviado por demorasentretantas, que hoje em dia qualquer encontro entre dois seres humanos é quase um acerto ao acaso na mouche da data aprazada. Por fim, qualquer coisa que se cumpriu (talvez o alinhamento propício dos planetas, porque não?) e lá se encontraram em quatro meias horas que lhes pareceram menos que duas, partidas ao meio. Apesar dos meses em que nem se haviam lembrado de que o outro existia (ou haviam-se lembrado assim como quem rapa as migalhas do fundo do pacote das bolachas, com uma gulodice displiscente), uma vez frente a frente e com um bom tinto de permeio, cuidaram de tudo contabilizar, informaticamentalmente, registando pesos, medidas e formas, num balancete favorável às exigências dos sentidos. Iam comendo e apreendendo as palavras, os tiques e os gestos, até então omissos do vocabulário afectivo do outro, digerindo-os com gosto. Quando, por fim, se esgotou o tempo que haviam tomado emprestado, deram-se a face e apressaram-se aos seus universos paralelos, bem sabendo da improbabilidade de futuras intersecções - percepção que, não obstante, lhes transmitiu o conforto morno de um velho sofá de sala. A indiferença pode ser uma forma de aconchego onde nos limitamos a deixar os nossos contornos para que neles se deite quem venha a seguir.

In Controvérsia Maresia

 

0 passaram o espanador

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