sábado, junho 05, 2004

Às 9 horas

Nunca percebi porque cumprias todos os dias o mesmo ritual. Mal soavam os primeiros acordes do genérico, lá estavas tu, a correr para o sofá. Como se não pudesses perder nem uma nota daquela melodia enfadonha. Sempre. A correr para o teu lugar...será que tens medo que um ser imaginável o ocupe? Quem? Quem se mais ninguém partilha esse teu prazer solitário em que vives a vida dos outros como se fosse a tua...quem? Fiz esta pergunta durante dias, semanas, meses, até se transformar num hábito diário. Mal acabava a maratona noticiosa, olhava para ti e perguntava porque corrias...o olhar vidrado, a beber todos os gestos das figuras que debitavam banalidades ou tragédias, sempre com a mesma entoação. E tu ali, a ouvi-los e a esqueceres-te de mim. A não fazeres caso quando te perguntava pelo teu dia ou se já tinhas pago a conta do banco. A preterires a nossa vida em prol de um punhado de desconhecidos. E eu sentada, ao teu lado, a tentar entender porque é que era mais importante o fecho de um parque fictício do que o facto de eu estar aborrecida e precisar de ti. Será que sabes que também eu detesto ter de me vergar perante figuras prepotentes? Será que imaginas que, todos os dias, também o nosso “habitat” corre perigo? Que também nós corremos o risco de fechar permanentemente as portas mas uma à outra? Acho que não...acho que não queres saber. Talvez seja mais fácil encheres-te todos os dias de dramas que não são os teus e procurar soluções que não as nossas...talvez gostes de fechar o coração e abrir apenas os olhos. Vaguear por outras casas, outras conversas, outras vidas que não as destas quatro paredes. Talvez corras, todos os dias, com medo que tu ocupes esse lugar que é de outra, todas as noites, à mesma hora. É dela que tens medo. De ti mesma. E do guião que não queres representar... Hoje percebi que não valia a pena interrogar-me mais. Sentei-me ao teu lado e deixei de viver a vida enquanto assistíamos à telenovela das 9h.

in Casa Antiga

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