sexta-feira, junho 04, 2004

Figos

Agosto. Uma tarde triste de sábado a saber a domingo. Um daqueles dias cinzentos que me fazem lembrar que Setembro está a caminho e que a vida regressa, lentamente, ao seu curso. Em breve, as ruas vão encher-se de novo de carros apressados, os bares reabrirão, os autocarros voltarão a estar sobrelotados e será (quase) impossível ir ao cinema à segunda-feira. Fico apreensiva…estava a habituar-me à acalmia de Lisboa em “férias” e não me apetece nada regressar ao bulício habitual… a simples ideia causa-me um arrepio e uma sensação de desconforto. Ligo o computador e vou directamente à pasta onde se amontoam centenas de músicas (todas à espera do estado de espírito que me leve a ouvi-las). Escolho Radiohead porque sempre me pareceram ideais para dias assim: melancólicos. Acompanhada pela voz dolente do Tom, procuro a minha mala. Apetece-me um cigarro (porque uma “passa” é sempre uma boa forma de espantar pensamentos negativos). Com um movimento mecanizado rodo a mola do isqueiro e inalo o fumo redentor…estupidamente, sinto-me aliviada, sem saber bem de quê. Dirijo-me à janela. Os meus olhos perscrutam a rua, sem olhar directamente para nada. O cenário é-me familiar e não parece passar-se nada que mereça a minha atenção. Continuo assim, durante alguns segundos, apenas a “não existir”…até que algo, subitamente, me leva a interromper o meu devaneio aleatório. À porta de um centro comercial velho e desbotado está um rapaz que vende figos. Não o conheço, não sei como se chama, nem onde mora… sei apenas que ele vende os figos que comerei ao jantar. Esses mesmos que há poucas horas comprou a minha mãe. Tão verdes, tão sumarentos e apetecíveis…mesmo a pedir que a minha boca se deliciasse com a intensidade de um sabor que se adivinha. Os tais que foram comprados “apenas para ajudar o rapazinho” que “ ele até parece boa pessoa” e “eu às vezes até lhe pago uns cafés”. Esses que “o pai não queria que comprássemos” mas que valeram a insistência “porque tínhamos que o ajudar, coitadinho, sempre é melhor que andar a roubar”. “Claro que sim”, disse eu à minha mãe. “Pois claro”, respondeu ela. “Se é assim…”, terá pensado o meu pai antes de retirar da carteira os euros salvadores que resgatariam o rapaz de uma carreira de furto e criminalidade. “Fez muito bem”, acrescentou a minha avó, não sei se a comentar o acto generoso de ajuda ao próximo ou se a antecipar já o prazer de tão gulosa sobremesa. E tu? Que pensas tu que te manténs ainda no mesmo local, com um cesto cheio de figos que tentas, em vão, apregoar? Que significam para ti os frutos que daqui a alguns minutos estarão no meu prato? O que colhes tu quando os plantas nos sacos que os fregueses ocasionais levam para casa? A que te sabe a glória da sua venda?...

in Entrelinhas , 18-10-2002

0 passaram o espanador

Enviar um comentário

<< Home

>